numa certa altura do sermão da sexagésima, pe. vieira ilumina :
"se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e
sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada,
que havia de nascer? uma mata brava, uma confusão verde". é o século 17, só pra constar.
em toda escola que se quer consistente, há
conselhos, reuniões, balanço geral pedagógico sobre o que cada área fez, quais
resultados esperados, como foram os pesos das provas e se alguma área arriscou
métodos diferentes de avaliação, além do famoso lápis com papel.
todos temos o que dizer a respeito de rendimento e objetivos a se
alcançar, quando saímos de uma sala de aula... há de haver reuniões, há de haver balanço. e autoavaliação.
claro está que a escola precisa também olhar para a rua e fomentar, em sala de aula, questões a respeito do óbvio: racismo, moradia, orientação sexual, violência contra mulher, necessidades da comunidade em que ela -- a escola -- se insere, arte para salvar o mundo, soluções para a fome, importância da leitura, ciência para melhorar o presente etc.
e o aluno também deve se perguntar: eu aprendi?
consegui produzir algo além daquilo a que fui levado a fazer, em dias de
avaliação? participei das aulas?
quando se busca excelência em uma instituição educativa, necessário é a transparência do projeto da escola, quer seja ele
apenas trampolim para vestibular, quer seja o da formação intelectual desde a
alfabetização. quando há muito discurso diferente sobre educar, dentro da instituição, só nasce mata brava. confusão.
falei com meus alunos, esta semana, sobre o conto "o espelho" -- veja vídeo, ao final do texto, aqui -- de machado de assis. a história é simples. jacobina, aos vinte e poucos anos de idade, rio de janeiro, século 19, é alçado ao cargo de alferes o que causa júbilo na família e certa inveja em alguns amigos. a tia marcolina lhe dá de presente um espelho, lá dos tempos de joão sexto. num determinado momento da narrativa, jacobina se vê sozinho, no sítio da tia -- que se ausentou por uns dias -- e treme de medo. passa dias nervoso, tenso. os escravos tinham fugido. para piorar, olhava no espelho grande que ganhara e não via sua imagem. as leis da física só voltaram ao normal depois que ele vestiu sua farda de alferes. é um conto sobre a vaidade. no texto, usam-se expressões como "alma exterior", "alma interior". padre vieira e muitos sacerdotes cristãos também condenavam a vaidade. até hoje, dar destaque a si mesmo, tatuagens, apliques no cabelo, lentes de contato coloridas, pulseiras, anéis, piercings pelo corpo, tudo ainda causa alguma repulsa em muita gente. apesar de haver quem se diga distante da cristandade -- nascedouro das condenações à liberdade humana -- muita gente se pega julgando e mostrando repulsa ao que pode tornar alguém um destaque. é pena.
este é o terceiro sermão da quarta-feria de cinza, século 17, não pregado por conta da enfermidade do autor. o tema continua sendo a morte. do pó ao pó. aqui, vieira discorre sobre a grandeza da morte diante da vida. a vida seria pior do que a morte. "De tudo o dito até aqui, se segue que é melhor a morte que a vida, e que o maior bem da vida é a morte (...). Fazendo pois uma grande diferença entre os miseráveis e os felizes, dizem os defensores da vida que para os miseráveis é maior bem a morte, mas para os felizes não" [vieira, sermão quarta-feira de cinza ] (...) porque a vida é todo o tormento dos miseráveis. Cuidam alguns, que não matar Adão e Eva foi misericórdia, e não foi senão justiça, porque perdidas as felicidades do paraíso, assim como o morrer seria remédio, o não morrer foi o castigo [vieira, sermão quarta-feira de cinza ] e o que mais diz este vieira, no terceiro sermão desta série "quarta-feira de cinza"? só me assistindo.
sermão pregado em roma, século 17, é uma extensão daquele de 1672, na mesma celebração do início da quaresma a questão, aqui, é morrer duas vezes. morrer bem é antencipar-se à morte. "Os que morrem já mortos têm o céu" // "Os que morrem vivos vão inferno" outro trecho fundamental : "Como diz logo a voz do céu a S. João:
Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor? Mortos que morrem? Que mortos
são estes? São aqueles mortos que acabam a vida antes de morrer. Os que acabam a vida com a morte, são vivos que morrem, porque os tomou a morte
vivos; os que acabam a vida antes de morrer, são mortos que morrem, porque os
achou a morte já mortos. Estes são os mortos que morrem; (...); estes são os
que a voz do céu canoniza por bem-aventurados: Beati
mortui. E se os que morrem mortos são
bem-aventurados, os que morrem vivos, que serão? Sem dúvida mal-aventurados." morrer duas vezes? como ? assista-me!
barroco e religioso (quase um pleonasmo, em se tratando de latinos), vieira trata da necessidade de reflexão, por parte de seus fiéis. é um sermão pregado no primeiro dia da quaresma. ano: 1672. onde: roma, na igreja de sto antônio dos portugueses. segundo o texto, o homem deve ter consciência de que é mortal e não comportar-se como um imortal. trechos fundamentais :
Duas
coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes,
ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não
é necessário entendimento para crer; outra de tal maneira certa e dificultosa,
que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura,
mas a futura veem-na os olhos, o presente não a alcança o entendimento. E que
duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulveremreverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de
converter.
Sois pó, é a presente; em pó vos
haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de
converter, veem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o
veem, nem o entendimento o alcança. (...) - [parte I ]
Enfim,
senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es. Todos os embargos que se podiam pôr
contra esta sentença universal são os que ouvistes. Porém como ela foi
pronunciada definitiva e declaradamente por Deus ao primeiro homem e a todos
seus descendentes, nem admite interpretação, nem pode ter dúvida. Mas como pode
ser? (...) A razão é esta. O homem, em qualquer estado que esteja, é certo que
foi pó, e há de tornar a ser pó. [ parte II ]
Esta nossa chamada vida não é mais
que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de
ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros
mínimo. Quem vai circularmente de
um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele tanto mais se chega
para ele; e quem quanto mais se aparta mais se chega, não se aparta. O pó que
foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim (...)[ III ]
Acalmou o vento, cai o pó, e onde o
vento parou, ali fica, ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado,
ou no mar; ou no rio, ou no monte, (...)
Assim
como o vento o levantou, e o sustinha, tanto que o vento parou, caiu. Pó
levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortus est.
Este foi o primeiro pó, e o primeiro vivo, e o primeiro condenado à morte, e
esta é a diferença que há de vivos a mortos, e de pó a pó. Por isso na
Escritura o morrer se chama cair, e o viver levantar-se.[ IV ]
Abri
aquelas sepulturas e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o
pobre e qual o rico? distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso
do feio, o rei coroado de ouro do escravo (...) carregado de ferros?
Distingui-los? (...) Não por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o
sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o
etíope, todos ali são da mesma cor.
(...)
Se
quereis ver o futuro, lede as histórias e olhai para o passado; se quereis ver
o passado, lede as profecias e olhai para o futuro. (...) Olhai para o passado
e para o futuro, e vereis o presente. [ V ]
Ou
cremos que somos imortais, ou não. Se o homem acaba com o pó, não tenho que
dizer; mas se o pó há de tornar a ser homem, não sei o que vos diga, (...). A
mim não me faz medo o pó que hei de ser; faz medo que há de ser o pó. Eu não
temo na morte a morte, temo a imortalidade; eu não temo hoje o dia de cinza,
temo hoje o dia de Páscoa, porque sei que hei de ressuscitar, porque sei que
hei de viver para sempre, porque sei que me espera uma eternidade, ou no céu,
ou no inferno.[ VI ]
Aristóteles
disse que entre todas as coisas terríveis, a mais terrível é a morte. Disse bem
mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão
pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai; a terrível
é a porta por onde se entra.
Se
olhais para cima, uma escada que chega até o céu; se olhais para baixo, um
precipício que vai parar no inferno, e isto incerto. (...)
Tanto
medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos,
desenganai estes vivos. (...)
E
porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom
conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os
quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva? Torno a dizer para
que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva?[
VII ]
uma das fases mais marcantes de nossa história da arte, depois da idade média, o barroco mais liberta que condena... condenar no sentido de impulsionar ao academicismo, se é que me entendem... é possível gostar do estilo mesmo sendo leigo, jejuno no tema. gente como bach, aleijadinho, velasquez, gregório de mattos, bernini e tantos outros, nos arrastam para emoções sempre diversas... é bom é barroco