sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

além da fábula: toy story e frankenstein

                                                          

na televisão, passa um dos filmes "toy story" (pixar). famosa fábula infantil e adulta ao mesmo tempo. num dado momento, um dos bonecos diz a seu parceiro de plástico: "você é um brinquedo!", tentando expor a realidade dura daquele instante. era necessário fazer com que o boneco de astronatuta reconhecesse que não tinha super poderes, era descartável... e também não voaria. sobra o  desespero de quem quer ser amado... os brinquedos são imagem e semelhança de seus criadores. tanto cebolinha quanto a barbie. é assim como mitos ou fábulas.
impossível não lembrar a criatura de "frankenstein" (séc 19), narrativa de mary shelley. tempo frio, a agonia das noites longas e ambientação gótica reforçam sensação de desespero e de muita coisa errada. num dado momento do livro, criatura e criador conversam, em região gelada da suíça. victor expõe para sua criatura que ela é única e o melhor é que desapareça. ela não passava de um fetiche de cientista que, como se imagina, era homem estranho. sobra desespero de quem quer ser amado...

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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

o dia que júpiter encontrou saturno - caio f abreu - comentário

 


o conto, do livro "morangos mofados" (caio f abreu) traz uma história provavelmente datada: dezembro de 1980. júpiter e saturno estão em conjunção a cada 20 anos, aos olhos dos viventes do planeta terra. este ano, 1980, foi momento do encontro visível desses corpos do céu. narrador onisciente conta uma narrativa sob duas perspectivas diferentes. começa assim:

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto.  (...) Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. A noite clara lá fora estendida sobre a Henrique Schaumann (...)
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a narrativa tem como cenário a cidade de são paulo.
história singela e simples: ela é tímida e está à janela, vendo estrelas, "discretamente infeliz" . ele, calças brancas, queimado de sol. conversam à beira da janela, mas não há conflitos explícitos.
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E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every day, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos do moço.
(...)
- Você gosta de Júpiter? 

- Gosto. Na verdade “desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra”. 

- Que é isso? 

- Um poema de um menino que vai morrer. 

- Como é que você sabe? 

- Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro. 

- Hein? 

(Silêncio) 

- Você tem um cigarro? 

- Estou tentando parar de fumar. 

- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora. 

- Você tem uma coisa nas mãos agora. 

- Eu? 

- Eu. 

(silêncio)

(...) 

- Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo. 

- Ninguém compreende. 

- Às vezes sim. Eu te ensino. 

 (...)

- Vou ver Júpiter e me lembrar de você. 

-Vou ver Saturno e me lembrar de você. 

- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar. 

- O tempo não existe. 

- O tempo existe, sim, e devora. 

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o verso "desejaria viver em júpiter onde as almas são puras..." é de um poema de henrique do valle (vazio na carne). na sequência, ficam mais próximos, se beijam e ele vai embora. na rua, ele olha pra cima, vê uma moça à janela tentando dizer algo, ele não ouve. aí, em sua cabeça, soaram soaram cinco tiros. em seguida , ele atravessa a avenida e ela se recolhe. fim.
prosa poética que personifica a união dos planetas que se aproximam e partem a cada vinte anos, silenciosamente.
o tema é a solidão, linha mestra do estilo do livro "morangos mofados". solidão, mesmo que próximo a outro ser.
em dezembro de 1980, tempo do encontro dos planetas, cinco tiros soaram, em frente ao edifício dakota, nova york. era o fim para john lennon.

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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

discutir literatura de homens ou mulheres no vestibular mascara o mais importante

 


figuras importantes da literatura, por aqui, não vêem com bons olhos a escolha de uma lista de leitura composta apenas por mulheres, para o vestibular da usp (fuvest), em 2026. de certa forma, uma lista só feminina pode mascarar o machismo inerente à cultura do país, principalmente nos século 19 e 20. concorda-se.
direito reconhecido em criticar o que quer que seja, tudo certo também. agora, sinto que se dá importância demais a um exame que não pretende medir o grau de conhecimento de estudantes. se fuvest escolhe este ou aquele, esta ou aquela, não vai alterar o preço do feijão. a literatura dos homens -- excluídos da lista -- não será excluída do mundo, eles continuarão aí. vestibular é exame, não é prova. vestibular não premia o bom esudante, a boa estudante. quem passa no vestibular xis só prova que foi bem naquele tipo de exame. passar em vestibulares, por aqui, não é tarefa apenas para quem estuda muito, mas sim, quem treina aquele tipo de prova.   
repito: legal discutir literatura, machismo, racismo etc. agora, não dá pra dar tanta moral pra uma prova (fuvest) que, de fato não busca medir conhecimento de modo pedagógico. quem faz isso é escola. pelo menos, deveria fazer. vestibular é exame. exclui, elimina, não gera aprendizado de fato. compare com a prova da carteira de motorista: fazer baliza e saber ler placas de trânsito não faz da pessoa -- necessariamente -- excelente motorista. educação no trânsito é outra coisa.
essa discussão sobre mais homens ou mais mulheres, no vestibular encobre o principal: leitura na escola (ens médio e fundamental). o debate de verdade precisa morar dentro das escolas. como estão as leituras nas salas de aula?

    clique aqui e veja a lista 2026 fuvest

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sábado, 16 de dezembro de 2023

hutukara - samba-enredo salgueiro 2024 - não vamos nos render

 


[ estatueta de omama enviada à organização do oscar 2023, eua ]
_ arte: felipe corcione _


 É Hutukara! O chão de Omama
 O breu e a chama, Deus da criação
 Xamã no transe de Yakoana
 Evoca Xapiri, a missão
 Hutukara, ê! Sonho e insônia
 Grita a amazônia, antes que desabe
 Caço de tacape, danço o ritual
 Tenho o sangue que semeia a nação original
 Eu aprendi português, a língua do opressor
 Pra te provar que meu penar também é sua dor
 Falar de amor enquanto a mata chora
 É luta sem flecha, da boca pra fora!
 Tirania na bateia, militando por quinhão
 E teu povo na plateia, vendo a própria extinção
 Yoasi que se julga: Família de bem
 Ouça agora a verdade que não lhe convém
 Você diz lembrar do povo Yanomami em 19 de abril
 Mas nem sabe o meu nome e sorriu da minha fome
 Quando o medo me partiu
 Você quer me ouvir cantar em Yanomami
 pra postar no seu perfil
 Entre aspas e negrito, o meu choro,
 o meu grito, nem a pau Brasil!
 Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom
 Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom
 Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso
 Não queremos sua ordem, nem o seu progresso
 Napê, nossa luta é sobreviver!
 Napê, não vamos nos render!
 Ya temí xoa! Aê, êa!
 Ya temí xoa! Aê, êa!
 Meu Salgueiro é a flecha
 Pelo povo da floresta
 Pois a chance que nos resta
 É um Brasil cocar!

  Composição -
Pedrinho Da Flor / M Motta / Arlindinho Cruz / R Galante / Dudu Nobre / L Gallo / Ramon Via 13 / R Ribeiro

* h
utukara - associação yanomami (sem fins lucrativos) que reúne habitantes da terra yanomami
* xapiri  -  espíritos da floresta
* yakoana  -  substância alucinógena feita para rituais xamânicos 
* omama  -  entidade divina que criou os yanomâmi; guerreiro criador
* yoasi  -  a criação de seu povo yanomâmi se deve à copulação de omama com a filha do monstro aquático taperesiki; já yoasi é irmão de omama -- ele é responsável pela morte e os males do universo
* napê  - ou "napepê" - significa "não" -- também pode ser referência a quem não é yanomâmi ou simplesmente um inimigo
* kopenawa
  -  davi kopenawa, liderança indígena yanomâmi; ativista
* ya temí xoa  -  expressão yanomâmi: "você ainda vive?"
* bruno e dom  -  bruno pereira (indigenista) e dom phillips (jornalista) assassinados em 2022 enquanto defendiam direitos indígenas

 
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samba reforça o compromisso com causa dos povos da floresta, nossos ancestrais. está dito e escrito que a ambição e hipocrisia estão extinguindo nossa gente, não só yanomâmi. ambição, hipocrisia e deseducação constante são o mal de agora e de antes.
a história dos povos indígenas deveria estar nos bancos escolares, mas a gente sabe como ainda funciona esse ciclo chamado "educação básica", por aqui... a letra do samba vai na ferida das "pessoas de bem", aqueles regidos pelo egoísmo, pela ignorância e, claro, são os que mais odeiam índios e pretos. é a gente que ri da fome dos índios ou que condena aqueles que ajudam (salve,  pe. lancelotti!) os necessitados sem teto e, agora, essa gente vai merecendo o esculacho no maior show de arte e aprendizado que é o carnaval carioca.
não vamos nos render. 
"meu vermelho deu o tom" está num dos versos do samba enredo e significa o pau brasil, como pode ser a cor que vai na pele de muitos indígenas em tempos de guerra. vermelho também é sangue, aquilo que corre na veia ancestral, assim como o que é derramado por indígenas e por aqueles que ousam defender esse povo ancestral -- citados na canção, diga-se... 
pois é, no nosso cotidiano escolar, tem sido mais importante o mito grego, o mito cristão do que omama. assim como deuses dos brancos mais conhecidos que xangô ou iemanjá. resta a poucos abnegados, como a turma do salgueiro, incorporar a flecha para que o brasil seja cocar. 
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 importante :
Aceitar a voz de seus ancestrais, ver os espíritos da floresta, xapiri, dançarem diante de seus olhos (...)  E reafirmar sua possibilidade humana, sua identidade, diante da vontade predatória dos brancosO costume ameríndio, afinal, está mais ligado ao futuro da humanidade do que ao seu passado, como refletia o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz em 1993: A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro.   
                                                                                                                       [ revista Cult ]

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veja o samba-enredo de 2024 -- hutukara


 
veja o samba eneedo de 2023 - salgueiro: 



ailton krenak -- outra voz da floresta:



quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

silêncio de um cipreste - cartola - um outro olhar

 


numa primeira postagem (julho, 2022) comentando o samba "silêncio de um cipreste", do rei cartola, afirmei o seguinte:    

(...) parece mesmo que existe culpa, nessa letra de cartola. então, a solução para o defeito seria mudar o pensamento – ao invés de tentar fazer alguma coisa. o pensamento, segundo o texto, é folha do cipreste que o vento leva, não tem peso. uma ação, pelo contrário, fica, tem peso, pode ser julgada. (...)

      [ clica aqui pra ler o texto todo ]

hoje, releio, estudo, converso, então, resolvo fazer ressalva. 
assim: a questão, no texto de cartola, não seria apenas o contraste entre o pensar e o fazer. lidar com pensamento não significa necessariamente deixar de fazer uma ação.  pode ser, mas nem sempre. olhem, a letra é introspectiva, revela arrependimento, é fato. agora, mudar o pensar também pode ser uma maneira nova de encarar o passado, ou seja, rever aquilo que o poeta diz não ter realizado, mas sem o peso. insisto: se o pensamento é como folha leve, então pode-se ver o passado de outra forma: com menos mágoa.

a letra está aqui:

  SILÊNCIO DE UM CIPRESTE
          Cartola [ 1908 - 80 ]

    Todo mundo tem o direito
    De viver cantando
    O meu único defeito
    É viver pensando
    Em que não realizei
    E é difícil realizar
    Se eu pudesse dar um jeito
    Mudaria o meu pensar
    O pensamento é uma folha desprendida
    Do galho de nossas vidas
    Que o vento leva e conduz
    É uma luz vacilante e cega
    É o silêncio do cipreste
    Escoltado pela cruz

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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

pera, uva ou maçã - caio f abreu - comentário

 



conto do livro "morangos mofados" do caio f abreu.
aqui, a relação entre psicanalista e paciente. o texto dura o tempo da sessão, desde a chegada da paciente, até o término e a a vinda de outro, quando o texto se encerra. o começo é assim:

Rói as unhas no momento em que abro a porta, a bolsa comprimida contra os seios. Como sempre, penso, ao deixá-la passar, cabeça baixa, para sentar-se no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre. Fecho a porta, caminho até a poltrona à sua frente  (...)

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a paciente conta um episódio que antecede sua chegada ao consultório, que é o tropeço em um caixão de defunto. ela estava entretida com suas ameixas, comendo com vontade, dobra uma esquina e topa com o caixão saindo da casa. a paciente e o psicanalista fumam vários cigarros, durante a sessão. 

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(...) então eu vinha caminhando devagarinho as ameixas eu não conseguia parar de comer, sabe, já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo (...) foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada (...)

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ao final, ela retira uma ameixa da bolsa, deixa sobre a agenda do psicanalista e lhe deseja "feliz ano novo". sai. ele, preocupado -- era setembro -- decide ligar aos pais dela para que a internem novamente. quando vai olhar para as meias, não dá tempo, a secretária anuncia outro paciente.
o que teria levado o psicanalista a querer que ela fosse internada? a história do defunto chama atenção e, presunção minha, pode se ligar a um possível desejo de morte da própria paciente -- ou de outro. 
vale notar que há dois conflitos nessa história: primeiro, aquilo que está embutido no discurso da paciente; segundo, ela havia notado que as meias do psicanalista estariam trocadas. isso o deixa curioso, ele disfarça, mas está querendo saber -- enquanto ela fala de seu assunto -- se seria uma branca e a outra listradinha de preto, mas não consegue ver.
você deve estar pensando se realmente só a moça precisaria internação. certo?

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sábado, 9 de dezembro de 2023

cozinha sentimental - um restaurante imaginário

 


meu aniversário está chegando e já encomendei pratos diversos, de repente escolho um deles. filé de auroque com farofa doce de azeitona. poder ser também: risoto de pupila de mamute, acompanhado de fígado de megalodonte, além, claro de guacamole de melancia. tudo vale quando se descobre que estômago não faz julgamento moral. viva a fome que aguça imaginação.

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  [ capa foi levemente alterada, entre o que está no vídeo e a nova edição ]



sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

abolição via vargas - romance histórico e ficcional

 


romance com dois narradores envolvendo personagem que vive em um museu possivelmente criado por... -- ah, não vou contar aqui! ... -- foi inventado a partir de práticas pouco ortodoxas de um desenhista e fotógrafo francês radicado em campinas, s paulo.
narrativa meta-histórica cuja trama envolve santos dumont, carlos gomes, o tal hercule florence, luiza xavier de andrade, iara e outras figuras que passaram (ou deveriam ter passado) por campinas.


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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

cruzes

                                             

                                                                   [ bill watterson ]

há vestibulares por aqui, à minha volta. usp, getúlio vargas, federal do abc, puc, unesp, unicamp, ita e mais uma dezena de médias ou nanicas. o método é o mesmo: acertar a alternativa mágica. são as provas de múltipla escolha. nome é cruel: escolhas. são várias possibilidades, então pode-se marcar qualquer uma. dá-lhe cruzinha.  
fazer prova é tormento porque, de repente, num par de folhas de papel decidem-se anos de esforço... vestibulares aqui da região de são paulo -- que consigo acompanhar -- têm valorizado assuntos como: negritude e racismo; violência contra mulher; imigrantes e refugiados; a própria educação e afins. excelente. agora, são assuntos que geralmene passam longe de bancos escolares, principalmente rede privada. ali, o que se escolhe é um pacote de informações -- a maioria eruditas -- e isso é vendido ao estudante como o graal da prova e o possível acesso à universidade. às vezes dá certo. 
livros didáticos, apostilas, vídeos, resenhas, musiquinhas, recursos de memorização, tudo vale para saber o delta-esse sobre delta-tê; ou reconhecer as causas da guerra dos cem anos; o modo de escravização na grécia; estilo literário de um joão-ninguém ou a importância da vegetação na sibéria. estudantes de ensino médio, quando bons, se especializam em assuntos gerais. agora, ética, reforma agrária, violência contra mulher, interrupção da gravidez, preservar natureza em sua cidade ou a política atual quase nunca entram no baile dos debates, nas rodinhas da cantina ou na voz do cansado professor. elitizar o ensino dá frutos amargos, a gente sabe. pessoas sem fundo histórico e científico -- pra ficar em dois itens -- acabam valorizando o individualismo, a ambição, aporofobia, homofobia e por aí vai.
olhem, na interação professor-estudante-comunidade está a base da boa educação. e o que mais? isto: atividades em grupo, interdisciplinaridade, produção de texto em todas as áreas, mostras culturais, feiras de ciência, grêmio estudantil e sistemas de avaliação coerentes. ah, e interpretação de texto. muita.

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

aqueles dois - caio fernando abreu - comentário

 

"aqueles dois", conto do livro "morangos mofados", do caio f abreu (1948-96)

raul e saul trabalham numa mesma firma. um é do norte do país, outro do sul. gostam de van gogh, de dalva de oliveira, carlos gardel e bebidas. trabalham num lugar que, segundo um deles era um "deserto de almas também desertas".

a aproximação deles é algo lento, natural, sem barulhos ou dilemas.

não há, explicitamente, ao longo da narrativa, uma relação sexual entre eles, mas são bastante íntimos. raul perde a mãe, passa uma semana fora. saul sente falta. raul volta, eles bebem, se abraçam longamente. dormem no mesmo quarto, nus. saul vai embora logo cedo.
logo depois, em janeiro, o chefe da repartição comunica a ambos que recebeu cartas de "um atento guardião da moral". nelas, falava-se em "psicologia deformada" e outras acusações. o chefe, temendo pela imagem da empresa, demite os dois.

termina assim:

Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai! alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina. Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

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o título completo do conto é: 
 "aqueles dois" (história de aparente mediocridade e repressão)

pois bem, o texto não poderia ser mais explícito. o tempo da narrativa é contemporâneo ao lançamento do livro "morangos mofados" (1982), algo então em torno dos anos 1970 e início dos 80. de novo, a frustração não de amor censurado, mas falta de liberdade. falta de respeito ao outro, principalmente neste quesito sexual, sentimental, ligado ao gênero. a máxima "seu corpo, suas regras" deveria fazer sentido sempre. 
lutar contra mediocridade ainda faz parte de nossas pautas -- "nossas" os educadores e educadores que tenham mínimo de humanidade nas veias, diga-se.

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