Mostrando postagens com marcador quixote. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador quixote. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de abril de 2024

céu líquido

 


[ ilustração: carlos h carneiro via i.a. ]


na peça "vestido de noiva" (n. rodrigues), a personagem alaíde sofre alucinações em cama de hospital, vê figuras do passado, revive realidades... a criatura de "frankenstein" (shelley) com certeza deve ter sofrido um tanto, antes de abrir os olhos amarelos, na alemanha. há outros aqui, na estante, sofrendo do mesmo mal, como naziazeno (os ratos), luís (angústia), quixote (d. quixote), mersault (o estrangeiro), sidonio rosa (venenos de deus, remédios do diabo) ou mesmo hamlet, que dispensa comentário. tudo povo alucinado. angustiado.
a depressão é a primeira curva na estrada das alucinações, não sei como se viraram esses personagens, porque estão sempre na curva, encostados, uns nos outros, aqui na estante do quarto, um empurra-empurra secular, às minhas costas, agora, enquanto escrevo. não é boa a sensação, quando se tem na estante "a queda da casa de usher" (poe) ou "fantasma de canterville" (wilde)... isso parece não ter fim. mas é só literatura. ou não.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

descreve a vida escolástica - gregório do matos

 



DESCREVE A VIDA ESCOLÁSTICA

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.

 [Gregório de Matos - Poemas escolhidos, ed Cultrix]

* esfola-gato - provavelmente brincadeira entre jovens, região do minho, portugal
* falsídia - mentira

 soneto do século 17: barroco.

satiriza e desmerece a vida do estudante, uma vez que não havia universidade, no brasil. pode ser uma referência ao jovem da afamada escola de jesuítas (1553-1759), em salvador, por onde passou gregório.

o estudante, no soneto, é desprezível, porque faz graça com freira, se envolve com moças tidas como vulgares e estuda pouco.
um dado triste: o grau de vulgaridade de um jovem é dado pelo tipo de mulher com quem ele se envolve: aquela que vende seu corpo por pouco preço -- daí, o diminutivo "putinha", provavelmente -- , e também com freiras que recebem assédio de gente como este estudante vulgar. muita masculinidade tóxica. infelizmente, cultura que ainda perdura.

lembra, neste caso, parte do caráter de raposão, personagem de "a relíquia", eça de queiroz, século 19.