quinta-feira, 23 de junho de 2022

pais idosos vão para casa de repouso, em ribeirão preto

 

2022: de 09 a 18 de junho, praticamente dez dias, estive em ribeirão preto, apartamento de pais idosos, ambos próximos dos 90 anos.
minha mãe caiu, em abril, dentro de casa, quebrou fêmur.
precisa acompanhamento o tempo todo; a memória falhando muito. meu pai já não tem o vigor de antes, memória vai enfraquecendo...
eu e irmão decidimos, nesses dez dias, que os pais iriam para uma casa de repouso, lá em ribeirão preto mesmo. e assim se fez.
lugar com enfermeiras tempo todo e médico regularmente. fora outras pessoas para conversar e atividades físicas (
musicoterapia, educação física, jogos de escrita, memória etc
).
o nó é a sensação que fica de desmembramento das rotinas de todos: eu, irmão e pais. cada um com sua ansiedade. cada um com seu touro selvagem dentro do peito. mas tenho ouvido de gente próxima que o que foi feito foi o melhor, o mais acolhedor etc etc. na casa de repouso os dois estão cercados de cuidados. é brisa que traz algum conforto. e estou procurando atividade física mais regular, para mim mesmo, como frequentar -- mesmo que irregularmente -- o pequeno espaço de academia aqui do prédio onde moro... deve ajudar.
recebi energia de família, amigos, amigas, meus alunos, alunas, colegas de escola, figuras mais e menos distantes, isso anima e me berça. essas energias continuam me acolhendo. o muito obrigado, aqui, é o mínimo.


terça-feira, 21 de junho de 2022

cordas de aço - cartola - comentário

 

    CORDAS DE AÇO
     Cartola [1908 - 80]

 Ah, essas cordas de aço
 Este minúsculo braço
 Do violão que os dedos meus acariciam
 Ah, este bojo perfeito
 Que trago junto ao meu peito
 Só você violão
 Compreende porque perdi toda alegria
 E no entanto meu pinho
 Pode crer, eu adivinho
 Aquela mulher
 Até hoje está nos esperando
 Solte o teu som da madeira
 Eu você e a companheira
 Na madrugada iremos pra casa
 Cantando
 
  . . . . . . . . . . . .  .  .  .  .

muito comum, no século 20, referir-se ao corpo das mulheres como "violão", por conta de sua forma ondulada, lembrando a cintura de uma figura feminina. o texto de "cordas de aço" traz a relação de um músico e seu violão. o instrumento pegado ao peito indica intimidade e cumplicidade. o poeta está sem "aquela mulher" (verso 10). num  determinado momento se lê: "perdi toda a alegria". restou a ele, poeta, a companhia do instrumento que expressa emoção. contudo, ela deve estar esperando e, assim que o violão soltar seu som, ela irá juntar-se aos dois. repare que a expressão "cordas de aço" também pode fazer referência à prisão. referência àquilo que prende algo; algum tipo de ligação muito forte que, nesse caso, deve ser o amor. mais do que isso, pode também ser a ligação forte com o samba que, além de acalmar sofrimento, o aproxima da mulher amada.
cartola: angenor de oliveira, nascido no rio de janeiro, 1908. falecido na mesma cidade, 1980. torcedor do fluminense. um dos fundadores da escola de samba estação primeira de mangueira, cujas cores foram inspiradas no clube de seu coração. o apelido "cartola" veio dos tempos em que trabalhou como pedreiro e, para proteger-se, usava chapéu. 

terça-feira, 14 de junho de 2022

o poder e a glória da edição: cortar é uma arte?

 


não consigo trabalhar sem um plano. aula; uma viagem; horários de chegada em determinado lugar... etc... embora, para algumas ações, só o primeiro ímpeto já vale o início de determinada tarefa, como, por exemplo, gravar vídeos para o canal do youtube. eles chegam ao espectador recheados de cortes, alguns suaves, imperceptíveis, outros abruptos e quase risíveis. algumas vezes refaço a gravação, mas na maioria delas, deixo como está, porque não quero o grammy latino, o troféu de edição, mas transmitir alguma coisa útil: literatura. e um pouco do meu jeito único de destroçar vídeos.
por que escrevo isso? 
não sei.

. . . . . .  .   .   .   .   .

este do nelson é um dos mais retalhados 

[ nos comentários tem uma crítica construtiva, aliás ]



quarta-feira, 8 de junho de 2022

as rosas não falam - cartola - comentário

                    

     AS ROSAS NÃO FALAM
        Cartola  [1908 - 80]

 Bate outra vez
 Com esperanças o meu coração
 Pois já vai terminando o verão
 Enfim
 Volto ao jardim
 Com a certeza que devo chorar
 Pois bem sei que não queres voltar
 Para mim
 Queixo-me às rosas
 Que bobagem as rosas não falam
 Simplesmente as rosas exalam
 O perfume que roubam de ti, ai
 Devias vir
 Para ver os meus olhos tristonhos
 E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
 Por fim
 
  . . . . . . . . .  .  .  .   .   .

saudade é o tema deste samba de cartola. qual a queixa do poeta? resposta: desilusão amorosa. o eu lírico divide com as rosas a tristeza que sente pela ausência da pessoa amada. o coração dá o tom -- vermelho -- à sensação, ou seja, ele vê, na rosa, o seu coração ferido e tenta falar com a pessoa amada, mas é inútil. as rosas -- cor avermelhada -- acentuam o estado emotivo do poeta que sonha com a volta de seu amor. para compensar a solidão e a tristeza, as rosas exalam o perfume que lembra a pessoa querida. ao final, a voz poética deixa recado a ela, pedindo que venha vê-lo outra vez para, de repente, sonhar com ele.

angenor de oliveira, nascido em cantagalo, rio de janeiro, 1908. falecido na mesma cidade, em 1980. torcedor do fluminense. um dos fundadores da escola de samba estação primeira de mangueira, cujas cores foram inspiradas no clube de seu coração. o apelido "cartola" veio dos tempos em que trabalhou como pedreiro e, para proteger-se, usava chapéu. 


terça-feira, 31 de maio de 2022

o mundo é um moinho - cartola - comentário

 


    O MUNDO É UM MOINHO
           Cartola   [1908 - 80]

 Ainda é cedo, amor
 Mal começaste a conhecer a vida
 Já anuncias a hora de partida
 Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
 Presta atenção, querida
 Embora eu saiba que estás resolvida
 Em cada esquina cai um pouco tua vida
 Em pouco tempo não serás mais o que és
 Ouça-me bem, amor
 Preste atenção, o mundo é um moinho
 Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
 Vai reduzir as ilusões a pó
 Preste atenção, querida
 De cada amor, tu herdarás só o cinismo
 Quando notares, estás à beira do abismo
 Abismo que cavaste com teus pés
 
 . . . . . .  .  .  .  .  .  .  .  .   .

angenor de oliveira, nascido em cantagalo, rio de janeiro, 1908. falecido na mesma cidade, em 1980. torcedor fluminense, foi um dos fundadores da escola de samba estação primeira de mangueira, cujas cores foram inspiradas no clube de seu coração. o apelido "cartola" veio do tempo em que trabalhou como pedreiro e, para proteger-se, usava chapéu. 
neste samba "o mundo é um moinho", eu lírico fala com sua amada que está indo embora, para decepção dele.
ele procura dissuadi-la da ação de abandoná-lo, dizendo que o mundo é moinho e vai triturar os seus sonhos. ameaça a mulher amada afirmando que ela não será mais o que é, caso saia tão cedo da casa e também da relação. o “ainda é cedo, amor”, do início, é trocado por “preste atenção, querida”, depois, ao final, é apenas “tu”, em um tom severo, cínico, diminuindo a intimidade e buscando -- pelo medo, pela persuasão -- mudar o rumo da vida da mulher. ao que parece, não conseguiu.


sexta-feira, 27 de maio de 2022

newton e sua maçã - lista de eventos do livro


                                          [ newton montando a capa do disco do pink floyd ]

"newton e sua maçã", livro de poskitt, ed cia das letras, é divertido e espalha as ideias do cientista inglês com alguma facilidade.
anote aí esses destaques:

* questões familiares, na primeira infância, deixam isaac newton um tanto amuado, recolhido

* morou, na juventude, na casa do boticário clark

* aos dez anos, newton vê sua mãe retornar à casa

* governo de cromwell -- muito conservador, puritano

* aos doze anos foi para escola de gramática do rei eduardo 6

TEMAS PARA ESTUDO

- como foi a relação dos estudos matemáticos de newton e a religião?

- pela leitura, pode-se perceber que isaac não alcançou explicações sobre gravitação, cores, tangentes e afins absolutamente sozinho... logo, o que basicamente é necessário para que surja um cientista, hoje?

- por que a figura de cientistas como newton, einstein, stephen hawking ou galileu são mostradas como excêntricas, inalcançáveis ou mesmo antissociais? 


sexta-feira, 20 de maio de 2022

cartola pra cabeça e livro: a busca de salvação

 


quando estava perto de terminar "abolição via vargas" (romance), achei um texto para epígrafe:

  "ouça-me bem, amor /  preste atenção, o mundo é um moinho"

é cartola, poeta e músico do século 20.
o livro saiu em dezembro de 2021 -- saiba mais no vídeo abaixo.
de lá pra cá, muita coisa se deu: tento deixar a depressão no controle, às vezes dá certo, mas na maioria das horas em que estou acordado, não. também existe o medo ainda desse coronavírus 19. por outro lado, houve matéria na tv-campinas (eptv) sobre o romance -- foi um reconhecimento e tanto...
enfim, a aposentadoria tão esperada veio, mas ainda sinto que remo com a colher, sobre uma prancha, em plena areia da praia, tentando evitar a próxima ressaca do oceano. quase tudo dói. dentes, pés, cabeça, o peito, o ciático... não tudo de uma vez, mas aos poucos, feito garoa intermitente. 
mais antigamente, eu acreditava piamente nas pessoas. hoje, sinto que são universos paralelos e que estou mesmo por minha conta. dói. cansa. já escrevi, aqui, que ninguém vai viver nossa dor. é cruel constatar -- na pele -- isso. acabo seguindo a vida por inércia. porque é o que sempre fiz: respirar, comer e achar que literatura vai me sustentar.  tem dado certo, porque estou perto dos 37 anos de carreira, em escolas, num trajeto ininterrupto. e isso ainda não me cansou, juro. 



sábado, 14 de maio de 2022

abolição via vargas desvenda trama com santos dumont e florence

 

                                   

romance que publiquei em dezembro de 2021.
"abolição via vargas" tem como cenário a rua direita, em campinas.
narrador que vive em lugar inusitado vai tomando contato com eventos da história da cidade que envolvem maria luiza xavier de andrade, santos dumont, miguel do carmo, carlos gomes e o maestro carlos gomes.

  clique e compre agora!

saiba mais sobre o livro :



terça-feira, 10 de maio de 2022

beethoven do barulho

 

                                                                             [ beethoven 1770-1827 ]

meus alunos das segundas séries, ensino médio, têm tarefa auditiva, neste bimeste: ouvir  beethoven e arriscar conhecer apelo "romântico" na sinfonia mais famosa do alemão. 
apresentada pela primeira vez, em 1824, austria, a sinfonia n.9, de ludwig van beethoven, corre o planeta pois marca um apelo à harmonia do gosto popular, para época, e vai durando até agora. muita gente se refere à obra simplesmente como a “nona”. som retumbante, passagens em modo “piano” e “alegro ma non troppo” dão ao ouvinte a sensação de aventura e algum dinamismo.a  passagem mais conhecida está no quarto movimento. a sinfonia também é conhecida como “coral”.  apesar do quarto movimento ser o mais famoso, o segundo dá o caráter tenso da obra, com velocidade, cordas, sopro e percussão.prevalece um certo tumulto de tom aventureiro e heróico, durante a obra, uma necessidade de mostrar a grandiosidade do ser humano, vivendo em sociedade e buscando a elevação divina. sobra o sonho de um mundo com as pessoas unidas. hoje isso é clichê. na época, era romantismo.na parte final, o tom agudo do coro marca a necessidade de ascensão, homens, amigos, unidos junto ao criador.imerso na surdez, a obra é a última do compositor que ficou praticamente todo o ano de 1823 ocupado em sua construção. uma espécie de síntese de obras clássicas passadas, a “nona” remete o ouvinte também a um futuro talvez grandioso, como se percebe pela união do poema de schiller aos acordes de beethoven.


sexta-feira, 6 de maio de 2022

ismália e a loucura de nós todos

 


tem sido extremamente difícil lidar com a realidade de indígenas mortos, estuprados, lidar com assassinato da comunidade preta, as violências contra mulher, contra grupos lgbtq, lidar com arrogância de muitos políticos que condenam constituição, atacam a democracia e, principalmente, a falta de orientação política de nossa classe social. é difícil ser bombardeado diariamente por esses temas e entrar em sala de aula para tratar do lirismo em alphonsus de guimaraens. juro, muito difícil. é uma loucura isso. mas, nesta semana, fui salvo por emicida, fernanda montenegro e ele, sim, o alphonsus de guimaraens, mineiro, nascido no século 19. mostrei, na segunda série do ensino médio, "ismália", do poeta simbolista. em seguida, "ismália", de emicida, música do seu álbum "amarelo". foi um alívio. a figura enlouquecida, no poema, transforma-se numa alegoria das violências sofridas pela comunidade preta, pelo brasil desses tempos de fake news e racismo estrutural. 

"Olhei no espelho, Ícaro me encarou
 Cuidado, não voa tão perto do Sol
 Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
 O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?!
 No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
 Ismália, Ismália
 Ismália, Ismália 
 Quis tocar o céu, mas terminou no chão
 Ismália, Ismália"
 
se você que me lê é educador, educadora, conheça a letra de emicida, renan e nave. álbum: "amarelo". confere.

falei um pouco sobre o documentário "amarElo", clica:



terça-feira, 3 de maio de 2022

escola precisa olhar mais para a rua

 

                                               [ carlos ruas ]

numa certa altura do  sermão da sexagésima, pe. vieira ilumina :

"se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? uma mata brava, uma confusão verde".
é século 17, só pra constar.

em toda escola que se quer consistente, há conselhos, reuniões, balanço geral pedagógico sobre o que cada área fez, quais resultados esperados, como foram os pesos das provas e se alguma área arriscou métodos diferentes de avaliação, além do famoso lápis com papel.
todos temos o que dizer a respeito de rendimento e objetivos a se alcançar, quando saímos de uma sala de aula... há de haver reuniões, há de haver balanço. e autoavaliação.
claro está que a escola precisa também olhar para a rua e fomentar, em sala de aula, questões a respeito do óbvio: racismo, moradia, orientação sexual, violência contra mulher, necessidades da comunidade em que ela -- a escola -- se insere, arte para salvar o mundo, soluções para a fome, i portância da leitura, ciência para melhorar o presente etc.
o aluno também deve se perguntar: eu aprendi? consegui produzir algo além daquilo a que fui levado a fazer, em dias de avaliação? participei das aulas? 
quando se busca excelência em uma instituição educativa, necessário é a transparência do projeto da escola, quer seja ele apenas trampolim para vestibular, quer seja o da formação intelectual desde a alfabetização.
quando há muito discurso diferente sobre educar, dentro da instituição, só nasce mata brava. confusão. 



quinta-feira, 28 de abril de 2022

descreve a ilha de itaparica com sua aprazível feritilidade - gregório de matos

 


DESCREVE A ILHA DE ITAPARICA COM SUA APRAZÍVEL FERTILIDADE, LOUVA DE CAMINHO O CAPITÃO LUÍS CARNEIRO,HOMEM HONRADO E LIBERAL, EM CUJA CASA SE HOSPEDOU

Ilha de Itaparica, alvas areias, Alegres praias, frescas, deleitosas, Ricos polvos, lagostas deliciosas, Farta de Putas, rica de baleias. As Putas, tais ou quais, não são más preias, Pícaras, ledas, brandas, carinhosas, Para o jantar as carnes saborosas, O pescado excelente para as ceias. O melão de ouro, a fresca melancia, Que vem no tempo, em que aos mortais abrasa O sol inquisidor de tanto oiteiro. A costa, que o imita na ardentia, E sobretudo a rica e nobre casa Do nosso Capitão Luís Carneiro.

Gregório de Matos - séc 17 - Poemas escolhidos, Cultrix

notas --  "pícaras" - ardilosas, astutas 
                  "preias"  -  presas
                  "ardentia" - calor intenso
                  "oiteiro" - pequeno morro com vegetação

. . . . . . . . . . . . . . . . .

poeta lista as características aprazíveis da praia de itaparica e, nela estão elementos de culinária, assim como pessoas. tratamento dado às mulheres é o pior possível. no século 17 era aceitável. na descrição dos prazeres, o termo "carnes", na segunda estrofe, ganha conotação dúbia: pode ser o pescado, pode ser gente. nessa linha, "melão" e "melancia" tornam-se metáforas de de partes do corpo das mulhres. tudo isso torna a úlitma estrofe bem sarcástica, uma vez que o dono dessa farra toda é o "nobre" e "nosso" capitão luís.