sábado, 27 de março de 2021

no meio do caminho é poema sóbrio e inquietante

 


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

[ carlos drummond de andrade ]

poema saiu em 1928, pela primeira vez, na revista de antropofagia (oswald de andrade). em 1930, passa a integrar o livro "alguma poesia". 

o texto se liga a "nel mezzo del camin", soneto parnasiano de bilac, mas que também acena para dante alighieri e o início de sua divina comédia: "nel mezzo del camin di nostra vita...", séc 14. no caso de bilac, soa como crítica ao artificialismo sem sal do estilo parnasiano.

o poema de drummond revela uma característica de um eu lírico tomado de certa covardia. é um eu poético que se apequena e isso se dá em outros livros, como "claro enigma" ou "rosa do povo", não cem por cento, mas está presente nesses livros um tanto desse "eu-menor-que-o-mundo".

o que fazer diante de um dilema, diante de uma pedra? a repetição dos versos sugere esse questionamento. o que fazer? o eu do texto, em princípio, nada faz. parece vítima do destino e não agente.

texto inquietante porque cada leitor terá seu ponto de covardia exposto, quando da leitura. todo ser humano tem seus medos, seu limites, penso eu. é uma provocação. 

saber mais? assista-me!











domingo, 21 de março de 2021

dona de mim - iza e a conotação - literatura

aula de literatura.

falo com meus alunos de ensino médio sobre denotação e conotação.

nomenclatura nova para muitos. eles estão na primeira série. o que são essas palavras, afinal? vamos lá.

DENOTAÇÃO é o sentido literal de uma palavra ou expressão.

exemplo: "esse mar está com muitas ondas". 

explicando: águas do amr agitadas, o clima trouxe ventos etc.

"mar" está em seu sentido literal

CONOTAÇÃO traz sentido diferente do original, o sentido figurado (texto carregado de figura de linguagem).

exemplo: "já chorei mares e rios / mas não afogo não"  (iza)

explicando: chorar mares significa chorar muito. a palavra "mares" está com outro sentido, além do comum. aqui, na canção, indica tristeza, no passado. "chorei" é pretérito. 

saber mais? veja:





quarta-feira, 17 de março de 2021

o ócio criativo é para classe média e não debate capitalismo

 

domenico de masi. 
a partir de entrevista dada a maria palieri, sai o livro "o ócio criativo". 
ano 2000. 

o sociólogo italiano trata das relações do homem moderno com o trabalho e prega a valorização do tempo para si como índice de criatividade e bem estar.

"o homem que trabalha perde tempo precioso", diz domenico.

logo o início da leitura, fica-se sabendo que sua ideia sobre "ócio criativo" passa pelo seguinte raciocíonio: quando atividades como trabalho, jogo (prazeres) e estudo se misturam, se aproximam muito, tem-se uma síntese dessa ideia, o tal ócio criativo.

a entrevista caminha e o sociólogo descreve a sociedade industrial entre final do século 19 e começo do 20. usa como exemplo a ford e sua linha de montagem que censura pensamento. 

ainda no início do livro, maria palieri questiona sobre uma certa visão acomodada da sociedade sobre os ritmos da vida industrial. a entrevistadora expõe que ainda se gastam quinze anos ou vinte de estudos para depois consumirem-se mais uns trinta de trabalho e fazer quase nada por si, no pouco tempo que sobrar. o discurso da pergunta é o mais longo do livro. ela -- a entrevistadora -- continua e questiona que haja uma certa visão natural da vida na era industrial que impede alguém de pensar um diferente modo de viver. 

saber mais?? assista-me!


sábado, 13 de março de 2021

negligência com história destrói nosso passado

 

está em discussão, hoje, março de 2021, uma alteração do nome do estádio mário filho, maracanã, para homenagear pelé. sou contra.

não foi diferente com a rodovia dos trabalhadores, aqui no estado de s paulo, rapidamente rebatizada de ayrton senna. o aeroporto dois de julho, em salvador, já é luís eduardo magalhães, faz tempo.

essas mudanças negligenciam a história, apagam as origens das coisas a que esses nomes se ligavam.

nada contra homenagear gente como pelé ou senna. agora, porque apagar o que estava antes? por que não batizar obras novas como os nomes dessas figuras? 

dois de julho é data célebre aos baianos e brasileiros em geral porque expõe luta pela independência, lá no século 19. no século 21, o falecimento do filho de antônio carlos magalhães deu chance para essa história ser apagada. quem vai ter a curiosidade de perguntar sobre o dois de julho, agora? 

a rodovia dos trabalhadores é emblemática. primeiro de maio. foi num dia assim que uma bomba explodiu, no riocentro, rio de janeiro, em carro (puma) de militares.  não é exatamente por isso que a rodovia tem esse nome, mas era uma marca de respeito a quem realmente punha mão na massa para pavimentar de asfalto o país. gente que simbolizava luta por melhoria, por aqui. mas acabou. o nome da rodovia é ayrton. ou seja, amanhã, quando falecer outra celebridade, a rodovia ayron senna pode mudar de nome. é triste

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saiba quem foi mario filho - clica neste link



quarta-feira, 10 de março de 2021

o infinito dos teus olhos - pedro xisto

                                        

                                                            pedro xisto, séc 20


texto traz recado ligado ao sentimento do eu lírico despertado pelos olhos que ele vê

sim, é um poema em forma do símbolo do infinito

a figura de linguagem que -- com perdão do trocadilho -- salta aos olhos é o paradoxo: "encontrar o infinito". se algo não tem fim, não dá pra chegar lá

podemos ler o texto assim : "o infinito dos seus olhos me faz encontrar o infinito"

ou assim : "encontrar o infinito dos seus olhos me faz encontrar o infinito"

e por aí vai

até o infinito



sexta-feira, 5 de março de 2021

março 2021 é tempo de agir contra vírus e ignorância

 


- manter o distanciamento

- escolas fechadas

- lavar as mãos 

- usar máscara

- acreditar na ciência

- ficar em casa

e assim, cuidar dos seus e da comunidade

lutar contra a ignorância é divulgar realidade, exercitar empatia, fortalecer argumentação em favor da vida, na terra (redonda)

não existe cloroquina que salve, nem spray, não existe tratamento preventivo contra covid, hoje. não é "mimimi", nem alarmismo. é realidade. 

prevenção é não circular!

        FIQUE EM CASA

      ACREDITE NA CIÊNCIA

    DIVULGUE A REALIDADE PARA EVITAR MAIS MORTES

     COMBATER IGNORÂNCIA SALVA VIDAS


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quarta-feira, 3 de março de 2021

carta de pero vaz de caminha ao rei dom manuel - 1500 - resenha


maio de 1500. último ano do século 15. brasil. 

pero vaz de caminha, escrivão da frota de pedro álvares cabral, escreve ao rei dom manuel

em função de seus antecessores terem prestados serviços à coroa portuguesa e ser amigo do rei -- literalmente -- pero vaz aproveita de suas funções de escrivão oficial para fazer, ao final da carta, pedido pessoal ao rei: solucionar situação do degredado jorge de osório, genro de caminha. jorge estava na ilha de são tomé.  por isso, a carta apresenta caráter íntimo, não apenas histórico

a carta-narrativa de pero vaz é um clássico histórico e artístico, pois traz o estilo do escrivão composto de humildade e devoção à coroa. além de trechos de pura ficção, como a descrição do episódio do encontro dos índios com cabral e sua comitiva. caminha faz uma narrativa de viagem em forma de carta (datação, local, destinatário etc). começa o texto por "senhor". 

no texto, registros de caminha:

- partida: 9 de março, belém, 1500, lisboa. 

- dia 14, nas ilhas canárias.

- dia 22 de março, um dos pilotos, pero escolar, avistou ilha de s. nicolau, pertencente às ilhas de cabo verde. eram dez horas, mais ou menos, segundo o escrivão.

- dia 23, noite: frota de vasco de ataíde se perde. diligências são feitas na região, mas "não apareceu mais!

trecho importante, na sequência do desaparecimento de vasco: 

"E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos."

* oitavas de páscoa - oito dias depois da comemoração da páscoa
botelho e rabo-de-asno - vegetais, plantas, provavelmente usadas para conter hemorragia nasal
* fura-buxos - aves aquáticas típicas do mar dos açores; chamadas "chiretas", são da família dos procelarídeos, voam grandes distâncias sobre oceanos

em princípio, a terra foi chamada "vera cruz"

em seguida, narra a chegada em terra, dia 23, quinta-feira, abril:

"E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio."

na terra foi deixado o degredado, condenados pela justiça portuguesa, afonso ribeiro 
na quinta-feira, 30 de abril, capitão recomendou que ao sair dos batéis (pequenas embarcações) fossem todos à cruz e que a beijassem para mostrar aos índios a devoção. por ingenuidade e extasiados de novidade, alguns índios imitaram os gestos de cabral e seu grupo. ao que caminha conclui : 

"E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma (...)"
como assim, não têm crença?...eles só não eram cristãos. ah, os europeus donos do mundo!

saber mais: veja o vídeo abaixo