terça-feira, 27 de dezembro de 2022

pesadelo em pablo picasso

 

                                                                 [ pablo picasso, 1939 ]

todo mundo tem pesadelos. se não teve, terá. é o mal de quem dorme.
a "divina comédia", de dante, é toda construída assim, a partir de sonos intranquilos, em sua primeira parte. o início de "a metamorfose", de kafka, é crucial para essa ideia de que pesadelos são fonte de literatura. já leu "frankenstein"?
quando tinha pesadelos, eu conseguia guardar alguns, dentro de potes de plástico -- desses de maionese --, também em livros ou mesmo dentro caixas de óculos velhos. ultimamente, uso duas gavetonas, sob a cama. quando estou sem sono, olho pra elas, bato com o nó dos dedos sobre a madeira, daí espero ansioso a resposta... até dormir aos sobressaltos de cansaço.
picasso, fez um quadro supostamente singelo, quase infantil, em que um gato abocanha uma ave... é terrível e, por isso, um de meus pesadelos mais marcantes. nunca sei se sou o dente do felino ou o ventre dilacerado da ave. vocês lembram o final de "a hora e a vez de augusto matraga"? pois é. e o tal "prometeu"? lembram? 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

de homens para homens

 

milly lacombe, mais uma vez, brilhante:

"O troféu de melhor goleiro da Copa como um imenso pênis rígido: que final apoteótico para um torneio radicalmente testosterônico. O que representa mais o poder do que o falo imenso e ereto?... Perto de Emiliano Martínez enquanto ele fazia de seu trofeu o simulacro de um pau duro apontando para uma parte da torcida estavam os homens mais poderosos do mundo: o Emir do Qatar, o genro de Donald Trump, (Kushner), o bilionário abobado que comprou o Twitter - Elon Musk -, o presidente francês e uma série de outros magnatas que controlam tudo no mundo, das leis à comunicação. Uma Copa onde pouco se viu mulheres na torcida, num país em que não ser homem local de comportamento heterossexual faz de você um ser humano inferior. Tudo feito por homens para homens entre homens... (...)
Para levar a taça a campo no dia da final, Iker Casillas. Ao lado dele havia uma mulher elegantemente vestida. Não sei quem era, nem seu nome foi mencionado durante a transmissão. Perdi alguma coisa? Alguém sabe de quem estou falando ou se tratava apenas de um troféu ao lado da taça? Mulheres não interessam e não importa dizer seus nomes.
O futebol é uma das poucas arenas onde homens heterossexuais podem demonstrar carinho um pelo outro sem correrem o risco de serem chamados de viados. O homem branco heterossexual e burguês é entendido como o sujeito político universal. Não se fala em identidade nesse caso."

    [ portal uol - dezembro 2022 ]

veja o texto completo de milly - clica

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

tinha uma pedra etc...

 

[ moon & ba ]

no meio do caminho, tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio da vesícula. 
isso mesmo. pedras.
neste dezembro vou a hospital para procedimentos cirúrgicos e retirar o cascalho do órgão. não sei se a vesícula vai junto, não importa agora. falta pouco. dizem especialistas e os íntimos que vai ser tranquilo, que vai ser rápido e isso e aquilo. mesmo assim, fico tenso.
no mundo do consciente e inconsciente vislumbro a possibilidade dessas pedras serem, de fato, um amálgama do que deixei de dizer, do que deixei de fluir. esse pacote nada lírico se forma e fica acumulado na gente. um efeito psicossomático de dentro pra fora esse segurar o verbo, segurar o gozo, a resposta e o gesto, em nome de sabe-se lá o quê. isso tudo pode sim ter sido acumulado, e o que era sombra, medo, ansiedade virou pedra. então, me sinto prestes a parir. quem sabe agora aprendo. falta pouco. 

terça-feira, 29 de novembro de 2022

11 na linha e cecília na beira do campo

                                              

em tempo de futebol, vai aqui um time...

[
não era bem sobre isso que queria publicar, mas ficou sendo]

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

escolha de túmulo - josé paulo paes - comentário

 



                                                   [ j p paes - por osvalter ]


       
 ESCOLHA DE TÚMULO
                              José Paulo Paes

                               Mais bien je veus qu'un arbre
                             m'ombrage au lieu d'un marbre.  - Ronsard -

  Onde os cavalos do sono
  batem cascos matinais.

  Onde o mundo se entreabre
  em casa, pomar e galo.

  Onde ao espelho duplicam-se
  as anêmonas do pranto.

  Onde um lúcido menino
  propõe uma nova infância.

  Ali repousa o poeta.

  Ali um vôo termina,
  outro vôo se inicia.

    [in "prosas seguidas de odes mínimas", cia das letras]
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se você não sabe francês, a epígrafe de ronsard diz algo mais ou menos assim, em tradução livre:
"só quero que uma árvore me faça sombra ao invés de um mármore".

poema com tema ligado à morte. a repetição "onde", no início de verso é conhecida como "anáfora", uma figura de linguagem.
o que temos, nese texto, é uma sequência de imagens ligadas ao fim da vida: "cavalos do sono", "pranto", "voo", "repousa" etc são uma maneira mais suave de descrever a passagem da vida para a morte, o que traz o nome de "eufemismo", outra figura de linguagem. 
vale lembrar que, pelo conjunto da obra de paes, podemos dizer que essa repetição de "onde" lembra uma reza, uma espécie de ladainha.
a figura do menino propondo nova história não deixa de ser um clichê que bem pode se ligar ao cristianismo e àquelas imagens de anjos, querubins e afins. contudo, a riqueza da proposta está no que o menino oferece: não se trata de outra vida, eternidades ou companhias divinas, mas sim uma outra infância. é inusitado. simbólico até o talo, faz crer que a infância é a melhor vida, porque livre, porque prestes a aprender tudo... é bem bonito. é literatura.

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saiba mais:



sexta-feira, 18 de novembro de 2022

vai bater o sinal: vestibular não é tudo

 

a notícia é de 2007. charles, hoje, deve estar pelos 30 anos. escrevi o texto abaixo, logo que a notícia se deu, na época. 

foi assim: 

vejo no jornal desta semana que um jovem de 14 anos, no paraná, foi aprovado numa prova para ingresso em faculdade. teoricamente, alcançou vaga bem antes de terminar o ensino médio. charles ribeiro é seu nome. a faculdade é a puc de curitiba. família pleiteia, na justiça, direito de cursar a faculdade, pulando o ensino médio. 
ultimamente, tenho percebido muita pressa dos jovens em seguir logo em uma carreira, fazer cursos de especialização, idiomas, mais pós-graduações, correr, correr... não é bom, todo mundo sabe. e por que continuam tentando pular etapas? pressão da comunidade? pressão do mercado? modismo? medo?
não sei quanto de precocidade há na mente de charles, o menino de quatorze anos que quer fazer faculdade, convivendo com mais velhos, respirando clima de gente que busca emprego e prazeres que só a privacidade de uma vida adulta e independente darão. tenho medo desta pressa. dizem que, na época, charles era superdotado. pode ser. se considerado assim, apenas porque foi bem num exame vestibular, há controvérsia. os exames para faculdade não atestam, necessariamente, conhecimento profundo. não é uma avaliação, mas um exame. tem diferença. então, não é coisa de outro mundo um jovem de 14 anos conseguir fazer parte desse exame. não duvido se muita gente, antes dos 15, estudasse um tanto, pudesse vencer um vestibular de faculdade. mas existe a vida a vencer e, para ela, não há prova antecipada. a maturidade é a experiência. a felicidade vem quase sempre junto.
a
proveito o espaço, aqui, para insistir: muito se pode fazer pelo planeta, pela reciclagem, economia de água etc. agora, é bom pensar um tanto na felicidade, com calma e responsabilidade.

tempos

 


ultimamente, figuras próximas perguntam como estou. pra uns digo que estável, pra outros não. depende da hora, depende do lugar.
há antidepressivos, remédios para pressão, umas iguarias mais específicas para alimentação. e pedras. sim, pedras. neste ano, detectaram várias, na vesícula, e devem ser retirada ainda em 2022.
uma canseira essa expectativa porque, apesar da distância de 4 anos, ainda lembro direitinho da cirurgia para retirar câncer de próstata. lembro bem porque o pós-operatório parece não querer sair da cabeça. nem do corpo. impotência, algum desânimo, sensação de solidão, desmotivação... 
parece que a decisão sobre o que fazer da vida já foi tomada, aqui dentro. só falta pôr em prática. parece simples. não é. 

sábado, 12 de novembro de 2022

comunicador fujiwara cria podcast sobre profissões

 


elucidar questões a respeito de determinadas carreiras pode ser a chave para um vestibular mais tranquilo. no mínimo, dá segurança. se você é estudante ou mesmo educador, precisa conhcer isto: voltado para estudantes de ensino médio, as conversas de oscar fujiwara buscam esclarecer ouvintes a respeito de determinadas profissões. vale a pena.

link abaixo
ouça podcast sobre profssões - clica

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

ao shopping center - josé paulo paes - comentário

 

                                                          [josé paulo paes 1926 - 98]

     AO SHOPPING CENTER
                   José Paulo Paes

   Pelos teus círculos

   Vagamos sem rumo

   Nós almas penadas

   Do mundo do consumo.

   Do elevador ao céu

   Pela escada ao inferno:

   Os extremos se tocam

   No castigo eterno.

   Cada loja é um novo prego em nossa cruz.

   Por mais que compremos

   Estamos sempre nus

   Nós que por teus círculos

   Vagamos sem perdão

   À espera (até quando?)

   Da Grande Liquidação.

 

     [in "prosas seguidas de odes mínimas", cia das letras]
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criticando o consumismo, o eu lírico junta o espaço do shopping ao momento do julgamento final, à moda católica. o poeta afirma que "vagamos sem perdão", uma vez que o consumismo é símbolo de vaidade, ação tão condenada pelos católicos. olhem, gostar de si, querer agradar ao próprio ser é ruim para essa religião porque é a chance de que a pessoa seja mais dona de seus próprios atos e deixe de dar ouvidos a histórias de outros mundos.

aqui, o eu lírico não está criticando o catolicismo e suas leis punidoras, pelo contrário, condena os que frequentam shoppings centers e os trata como seres vazios. "cada loja é um prego" significa o erro de ser consumista, ou seja, ir ao shopping tira da pessoa a chance de ir à igreja. o poeta pune aquele(a) que compra.
o texto tem o caráter de uma "ode", ou seja, texto de homenagem, na tradição clássica. no caso, uma grande ironia, como se lê ao final.
essas pessoas consumistas vazias esperam o grande perdão por serem o que são: consumidores. "grande liquidação", ao final, é t
rocadilho digno de aplauso. é instigante. é literatura.

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saiba mais :



domingo, 6 de novembro de 2022

patriota no caminhão é chamado para justiça agir contra antidemocratas

 

                     retrato do mundo paralelo em que vivem bolsonaristas
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milly lacombe escreve muito próximo do que eu gostaria de assinar. como sei que a ideia é multiplicar chance de melhorar a vida, coloco aqui trechos de seu artigo, de novembro, 2022:

Bolsonaro perdeu e seu bando tomou as ruas. Homens e mulheres vestidos em amarelo deixaram claro desde o domingo (30/11) à noite que seguiriam as ordens de seu mito e aguardavam coordenadas (...)
As coordenadas dadas a partir de Brasília foram cifradas e cada um interpretou como quis. Entre marchas com bandeira em punho e cantorias de hino nacional com saudação nazista, os patriotas berravam que a direita veio para ficar. Leia-se extrema-direita, evidentemente.
A anistia geral e irrestrita na década de 80, deixando sem punição os torturadores da ditadura, nos trouxe até esse estado alucinado e violento de coisas. Não podemos mais errar assim. (...) É preciso haver punição aos golpistas, aos policiais rodoviários prevaricadores, aos empresários que estão financiando a baderna. (...) Punir todos os responsáveis de forma categórica e exemplar. Em seguida, investigar as inúmeras suspeitas de crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro (...)

leia o texto de milly lacombe - clica

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a cena do patriota pendurado no caminhão, lá em pernambuco, é ilustração do golpe que não deu certo. aliás, não se dá golpe do dia pra noite. 
olhem, gente cantando hino nacional pra pneu na estrada, outros carregando bandeira do brasil no carro e buzinando pra lombadas ou mesmo os alucinados pedindo ditadura, pelas redes sociais, ofendendo e ameaçando quem não é pelo mito dessa gente, são figuras manipuláveis, são os ilegais, principalmente quando pedem militares no poder, pedem a morte a lideranças que chamam de "esquerda", tudo em nome de algo que nem eles mesmos sabem.
sim, é uma alegria desmedida saber que foi tirado do poder uma figura atroz. é um alívio. economia parece estabilizar-se e há acenos da política internacional em prol do país e de sua saúde. o terrível é lidar com seus alucinados seguidores que chutam a lei e ameçam ordem pública.
milly tem razão quando diz que a anistia da década de 1980 deixou de banir torturadores e defensores de genocídios, aqueles praticados pelos militares e apoiadores, por 21 anos, entre 1964 e 85. a anistia perdoou essa gente. o resultado é claro e, hoje, e não se pode errar mais.
vejam: ex-ministros, o próprio jair, filhos, aquela gente que repassou notícia falsa, propagou cloroquina, que desdenhou da vacina e das máscaras, gente que queimou floresta, pediu propina para vacinação, estuprou indígenas, comprou voto com orçamento secreto etc etc, essa gente precisa pagar, precisa ser presa. do contrário, amanhã, não será um patriota pendurado num caminhão... será uma frota gigante de patriotas atropelando a vida de verdade.
a história não perdoa deslizes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

canção - cecília meireles - comentário

 

     CANÇÃO

 Pus o meu sonho num navio
 e o navio em cima do mar;
 — depois, abri o mar com as mãos, 
 para meu sonho naufragar.

 Minhas mãos ainda estão molhadas
 do azul das ondas entreabertas,
 e a cor que escorre dos meus dedos
 colore as areias desertas.

 O vento vem vindo de longe,
 a noite se curva de frio;
 debaixo da água vai morrendo
 meu sonho, dentro de um navio...

 Chorarei quanto for preciso,
 para fazer com que o mar cresça,
 e o meu navio chegue ao fundo
 e o meu sonho desapareça.

 Depois, tudo estará perfeito:
 praia lisa, águas ordenadas,
 meus olhos secos como pedras
 e minhas duas mãos quebradas.

     Cecília Meireles [ Viagem, 1939 ]

  . . . . . . . . . .  .  .   .   .   .   .   .

versos de oito sílabas poéticas, isso mesmo. octassílabos. ritmo regular com um par só de rimas por estrofe.
poema de caráter narativo, uma vez que há lista de ações e a voz de quem fala revela emoção; também de caráter lírico porque há ritmo regular e o apelo semântico desmedido presente no desfecho.
influenciada pelo simbolismo -- final do século 19 e inícios do 20 -- a poesia de cecília, aqui, expõe tristeza sem os exageros do romantismo. é de caráter depressivo, sim, o texto. lembra alguém que desiste de algo importante: o sonho. a bem da verdade, desistir de sonhos não é, necessariamente, algo ruim sempre, mas aqui, é uma ação bem dolorosa, já que os olhos estão secos de tanto choro e mãos quebradas, ao final.
para ter certeza de que o sonho afundado está mesmo seguramente submerso, o eu lírico afirma que chorará muito: as lágrimas serão tantas que farão o mar crescer. haja rivotril. 


domingo, 30 de outubro de 2022

escolas precisam assumir seu papel na história do país

 


o tempo dos vestibulares estressantes e do caminho estreito para universidades pode -- finalmente -- estar se extinguindo. não que os vestibulares terminarão logo. mas haverá mais opções, mais vagas, é isso que tento dizer. daí, menos estresse, penso eu. pode ser que essa guinada chamada "novo ensino médio" apenas reforce que tudo ficará como está, no quesito acesso à universidade. esperar pra ver.
olhem, os vestibulares de hoje e de tempos passados ainda insistem em cobrar quase sempre apenas informação e não conhecimento. lamentavelmente, esse tipo de exame norteia quase todas as escolas de ensino médio, no país, principalmente as particulares. estudantes saem dessas escolas sabendo o número atômico do hidrogênio, a fórmula de bahskara, o sistema econômico da itália na idade média ... daí, quando estão na rua, votam em anti-vacina, em terraplanista ou naqueles que destroem natureza. é o caos. é quase um meme.
a escola deve tratar das necessidades da comunidade, tratar do combate ao racismo, à valorização da natureza, a ciência, a leitura, a arte e o esporte... e, principalmente, como funciona a política de sua cidade, de seu país. 

já escrevi mais sobre essa questão da escola na vida da comunidade em que está inserida. clique abaixo, me diz o que acha.
importância da escola - clica



sábado, 22 de outubro de 2022

canção de exílio - josé paulo paes - comentário

 

                             


      CANÇÃO DE EXÍLIO
                      José Paulo Paes [1926 - 98]

  Um dia segui viagem
  sem olhar sobre o meu ombro.

  Não vi terras de passagem
  Não vi glórias nem escombros.

  Guardei no fundo da mala
  um raminho de alecrim.
 
  Apaguei a luz da sala
  que ainda brilhava por mim.

  Fechei a porta da rua
  a chave joguei no mar.

  Andei tanto nesta rua
  que já não sei mais voltar.

   [in "prosas seguidas de odes mínimas", cia das letras]
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poema paródia do adocidado "canção do exílio", gonçalves dias, 1843.
aqui, ao contrário das boas expectativas no citado poema romântico, temos dose de pessimismo.
texto de caráter narrativo, revela que o poeta não viu, no passado, nem "glória" nem "escombro", ou seja, nada de ruim ou bom.
no fundo da mala, ou seja, dentro de si, vai um ramo de alecrim. na tradição europeia, era chamado de "rosmarino" -- flor do mar, para os romanos. aqui pelo país, é costume crer que o alecrim afasta inveja ou pesadelo. 
veja, mesmo não enxergando nada de ruim, no passado, melhor prevenir e botar alecrim na mala.
o eu lírico fecha a casa, joga a chave no mar, ou seja, busca distanciar-se de suas origens, de seus possíveis problemas, quer mudar de vida. a expectativa sobre o que esse eu lírico faz depois de tudo é quebrada, porque, no final, se descobre que talvez ele tenha se arrependido e só não volta porque se perdeu. outra leitura possível para esse desfcho você mesmo pode criar. é divertido. é literatura.

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  saiba mais sobre josé paulo:




segunda-feira, 17 de outubro de 2022

o fantástico mundo da depressão

 


há pouco soube que psiquiatra e terapeuta vão trocar ideia sobre o paciente remediado. nada mal. importante esse registro. importante que troquem impressões. o paciente -- no caso, eu -- parece melhorar, mas isso é no campo da comparação e, no limite, especulação. no final dos anos 1960, por exemplo, eu estava ligeiramente melhor que hoje, com a desvantagem de não ter a menor ideia de como seria meu futuro. tinha entre 4 e 5 anos de idade. pelo menos não tinha depressão e nem sabia da existência da ponte preta. depressão é ruim, senhoras e senhores. bem ruim. quem não tem depressão sempre acredita que isso "uma hora passa". outros acreditam nos remédios, nos fitoterápicos, nos alopáticos, enfim, em algo que se possa ingerir ou esfregar e, pumba, começa o show. viva a tarja preta. só que não. 

há alguns anos, ando por aí cerca de um centímetro do chão: engastalhado de comprimidos, alguma ansiedade e pressão alta.
o caminho para o outro lado desse mundo da depressão é algo que desanima... solidão é única certeza. ainda bem que, após 50 anos de vida, por instinto de sobrevivência, instalei um piloto-automático no meu cérebro, chama-se fingimento. então, com ele preparo aula, vou a mercado, tiro selfie com os próximos, boto água na planta, faço comida e até durmo. pouco, mas durmo.
a sensibilidade aflorada não deixa digerir nada fora do simples. qualquer conflito vira um inferno... qualquer sensação de que um deslize foi cometido é motivo de quase pânico. perde-se a fome. existe a vergonha, a vontade de sumir. solidão.


já disse, em outro post, que ninguém vive nossa dor. é fato. mas com o fingimento você até pode fazer amigos. ele não funciona em terapias, já aviso. mas cabe bem no bar, na trilha, hora do lanche ou em formaturas.
terapeuta e psiquiatra devem ter algum plano. essa gente sempre tem. 
enquanto espero, vou sentar e tentar descansar um pouco.


sábado, 8 de outubro de 2022

dicas de leitura - ensino fundamental e médio

 



      LEITURAS PARA SALVAR O MUNDO

dentro desse mundo repleto de barbárie, há de se começar por algum lugar e, como trabalho em escolas, achei que poderia compartilhar o que pretendo fazer ano que vem com meus estudantes, todos do ensino médio.  de repente ajuda, no mínimo, a combater essa enxurrada de violência, ódio e racismo. quiçá, mudar o mundo pra melhor, de uma vez. 

 1. "a vida não é útil" (krenak) 

sugestão: 9o (fund2) e ensino médio

-- cuidar do planeta
-- relação do humano com a tecnologia
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 2. "olhos d'água" (conceição evaristo)

sugestão: ensino médio

- - pelo menos dois contos: o primeiro e mais um

-- debate sobre racismo estrutural; amor; passado da negritude

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 3. "pequeno manual antirracista" (djamila)

-- racismo institucional e estrutural

sugestão: ensino médio, 8o. e 9o. anos

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 4.  "campo geral" (g rosa)

sugestão: ensino médio 

-- família o que é; infância; ética; busca de felicidade

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 5. "o conto da ilha desconhecida" (saramago)

sugestão: ensino médio

-- busca de felicidade; rei versus povo; sonhar; coletividade; viajar

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 6. "ideias para adiar o fim do mundo", krenak

sugestão: 9o. ano e ensino médio

-- ambiente; futuro; comunidades indígenas; tecnologia

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 7. "o visconde partido ao meio" (calvino)

sugestão: 9o ano e  1a. série ensino médio

-- maniqueísmo; bem e mal; preconceito; democracia

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8. "cartola - dez sambas" (agenor de oliveira / música)

-- lirismo na literatura, desde idade média; questão social; identidade

sugestão: 8o. e 9o. anos; ensino médio

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as leituras precisam ser compartilhadas com pelo menos mais um educador, educadora... ideal era que toda classe docente, em algum momento do ano, tratasse de um tema -- pelo menos -- dentro da leitura escolhida; mesmo no caso das chamadas "exatas" é possível ter um instante pra discutir, por exemplo, como a ciência, pode colaborar para acabar com racismo, preservar mais a natureza etc. olhem, em "conto da ilha..." o tema é a busca de um lugar novo que muito bem pode estar dentro de cada um... navegar é preciso, diz um ditado luso... por isso, unir música, história e física pode tornar a leitura de saramago (item 5) algo surpreendente.  é possível sim, juntar as áreas de matemática, arte e língua portuguesa para discutir economia, poluição, mundo digital, espírito colaborativo, reciclagem... ideia não falta.
olhe, se você acha que não dá pra salvar o mundo todo agora,  a gente pode tentar salvar uma pessoa de cada vez, mês a mês, ano a ano.


domingo, 2 de outubro de 2022

luta contra barbárie continua!

 


sensacionalismo em parte da imprensa; o racismo institucional e instalações pelo país ligadas a pseudo-religiosos -- somem-se aí canais de tv que vendem reza -- colaboraram sim para expressiva votação de jair, neste primeiro turno, 2022. o atual presidente teve 43% dos votos contra 48% de lula.
olhem, figuras conservadoras e distantes de questões -- por exemplo -- ambientais, como ronaldo caiado (mato grosso), castro (rio de janeiro) ou ratinho júnior (paraná) dão o tom de como a influência dessas insituições (uma boa parte da imprensa; pseudo igrejas) atrapalha desenvolvimento de questões substantivas como natureza, fome, desemprego, democracia, ciência, arte, não-violência etc... acrescente-se a enxurrada de mentiras sobre humanidade, desde terra plana, cloroquina contra covid, comunismo no brasil e outras bizarrices nessa linha. barbárie. são as fake news a todo vapor. 
é assustador que mesmo depois das mais de 600 mil mortes na pandemia, crise dos combustíveis, as "rachadinhas" e discurso de ódio de políticos como jair não fizeram o brasileiro médio se render à realidade... e acabaram elegendo, hoje, o pazzuello, a damares, zema, o astroanauta, o eduardo bolsonaro, mourão, além de outros tantos conservadores e vendilhões para cargos no senado, congresso e governo. estarrecedor. 
volto a insistir: escolas têm chance de manter viva ideia de humanidade.
como: debatendo questões sociais, em sala de aula, desde voluntariado, horta comunitária, transporte público, poluição, orientação sexual (sim!) e acesso a informação decente ou acesso decente a informação. debatendo política nacional, lógico! também discutir respeito às diferenças; racismo; mais leitura. é a civilização com alguma chance. 

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sábado, 1 de outubro de 2022

política não é entretenimento

                               

fernanda magnota deu a letra e publicou texto de respeito: por um brasil que não trate política como entretenimento.

coloco aqui um trecho : 
"Chegamos às vésperas da eleição presidencial no Brasil, todos de ressaca, exaustos pela exposição à tanta baixaria. (...) A culpa disso é de todos aqueles que estimulam os próprios líderes a se comportarem como apresentadores de programa de auditório. Presidente não é feito para 'mitar', é feito para conceber, negociar e implementar políticas públicas que beneficiem o interesse coletivo.(...)"
                      F. Magnotta, setembro 2022

 texto está no site uol.
política não é entretenimento - fernanda [clica]
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olhem, brasileiro, em geral, encara política com negligência, com descaso. um tanto da culpa é a postura de muitos políticos que, quando candidatos, se mostram midiáticos, palhaços, verborrágicos. não dá. mas o brasieiro já votou na xuxa (sem que fosse candidata), já votou no cacareco (rinoceronte), no tiririca, bolsonaro, pastores em geral e uma infinidade de outras figuras desprezíveis, que mereciam distância do poder público. muitos eleitores fazem isso por pura farra ou falta de estudo mesmo; e são incentivados por parcela da política que procura capturar justamente esses eleitores iletrados.
escolas brasileiras perdem excelente oportunidade de começar a resolver o problema quando fingem que nada acontece para além dos muros da sala de aula. uma pena. as públicas levam ligeira vantagem sobre as privadas, via de regra, porque podem trabalhar sobre projetos, já as privadas estão assentadas em conteúdos teóricos. em geral, estudantes saem das escolas  sabendo o que é barroco, as leis de newton, a fotossíntese e a economia na roma antiga... mas depois, elegem políticos anti-povo; elegem políticos que desmatam amazônia, que se vangloriam da corrupção. é quase um meme. é o caos.
simular eleição, explicar como funciona o congresso, mostrar do que o país necessita e qual seu papel na onu, por exemplo, são ações tão básicas quanto existência de bebedouro no corredor ou banheiro no fim dele. tratar de temas da política local, do bairro onde a escola se insere também deveriam nortear os princípios da boa educação. 
passou da hora das escolas tratarem de questões substantivas assim como tratam da vida no egito antigo ou como se forma a palavra sambódromo.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022

negritude e jade picon - tema de redação

 

                     [ jade picon e a sandália com temática afro ]

coloquei, aqui, dois textos como uma coletânea para você, estudante, se basear e desenvolver um texto argumentativo: artigo de opinião, crônica argumentativa ou a clássica redação modo-enem, modo-fuvest etc.

os textos são estes abaixo, basta clicar, ler e voltar aqui

jade e acm neto - privilégios da branquitude

comunidade preta reage a jade picon


o que é importante desenvolver se encontrar proposta que exiga uma argumentação e ainda peça soluções para questão do racismo.

primeiro: diferença entre racismo estrutural e institucional.

- racismo estrutural: sociedade cresceu baseada na ideia de que o negro é inferior ao branco (também vale para comunidades indígenas)

- racismo institucional: prática de segregação feita por instituições que se sustentaram no racismo estrutural; por exemplo: empresas que simplesmente não contratam negros; publicidade de produtos apenas com modelos brancos etc

vamos à redação argumentativa
1. crie uma tese, sua, a respeito; por exemplo:

- racismo institucional se combate na escola e na infância -

2. argumentos que defendam a tese 

(usei tópicos pra ficar objetivo / desenvolva parágrafo para cada item)

 com estudantes, promover podcast sobre o tema; mostra cultural contendo o assunto "negritude" e "raízes" da identidade brasileira

- documentário "amarelo", de emicida (toda escola)

- manual antirracista de djamila (qualquer idade) -   livro

- niketche, paulina (ensino médio)  -  livro

- black power de akin, kiusam (fundamental 2) - livro

estes itens acima, quando desenvolver seu texto, devem reforçar a ideia de que através do debate, na escola, aumenta-se a chance do indívíduo crescer com clareza a respeito das diferenças sociais, étnicas, no país.

lembrar que no modo enem, antes da conclusão é preciso apresentar proposta de solução para o que foi dado no tema.
sendo assim, reforce a necessidade de um chamamento de toda a comunidade (família, vizinhança etc) para dentro da escola, durante atividades a respeito do racismo.

3. conclusão: reforço da tese, ou seja, através da educação e a vivência de toda a comunidade junto à escola, será possível minimizar e acabar com racismo estrutural e, consequentemente, o institucional

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