segunda-feira, 3 de maio de 2021

pedaços de anjo recuperam dante do inferno

                                      
                                 [ roberto ferri, séc 21 ]

um poema do italiano dante alighieri (séc 14) é versão lírica -- provocante -- daquilo que mary shelley faria, no século 19, quinhentos anos depois. um milagre, dirão uns. ficção, sussurrarão outros.

veja:

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand'ella altrui saluta,
ch'ogne lingua deven tremando muta,
e gli occhi no l'ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare, benignamente
e d'umiltà vestuta; e par che sia una cosa venuta
dal cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira,

che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender nolla può chi nolla prova.
E par che de la sua labbia si mova un spirito soave
pien d'amore, che va dicendo a l'anima: Sospira.

     Dante Alighieri [in: Vita nouva ] séc 14

 a melhor tradução pra mim é a de augusto de campos mesmo

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.

Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.

E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!"

campos optou por traduzir em forma de soneto, marca dos italianos.
a figura amada é transmutada em angelical matéria de fé e realidade. uma beleza de paradoxo. s
uspira.

para expressão "donna mia", augusto foi de “dama”, mantendo as nasais. e a "cosa venuta dal cielo" virou "anjo" mesmo. excelente solução.
poeta criador de um inferno bem à moda cristã, dante, aqui, parece estar mais pagão, mais humanizado do que em "a divina comédia". amor que tira gente dos infernos?

o anjo veio, está lá, no texto, para dar provas de milagre.

no meio do poema, a palavra “milagre”. e este -- imagina-se -- deve ser o amor. mas pode ser outra coisa. o que seria?...
a falta que os nomes fazem. mas deve ser bom não saber nomear certas coisas.

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