terça-feira, 29 de setembro de 2020

ruínas circulares - jorge luis borges - resenha


                                                       escher - 1948

conto publicado no livro "ficções", 1944, em buenos aires, argentina
em 1941 o conto sai na coleção "o jardim dos caminhos que se bifurcam" 

as ruínas circulares

um mago chega numa região de beira de rio, vindo do sul, à noite.

este mago precisa dormir. quando dorme ele é um criador. em sono, alimenta sua fantasia criativa. 
ele, bem cansado, chega até o recinto das ruínas circulares. o local havia sido consumido pelo fogo. 
o mago precisava dormir e sonhar um homem. era seu destino. a necessidade era tamanha que ocupava toda sua alma, de modo que nem sua origem ou nome ele mesmo desconhecia.
lavradores, em volta do lugar, sustentavam sua vida com fruta e arroz.

nos sonhos, havia alunos para este mago. estudavam anatomia e cosmografia.
os alunos não supriam a expectativas do mago mestre. então, ele os dispensa, ficando apenas com um. mas antes de seguir com seu projeto de criar alguém, veio a tragédia: ele despertara desse sono e não conseguia mais dormir. passou dias assim, lúcido. desesperado. resolveu recuperar energias. 

numa noite enluarada, o mago purifica-se nas águas do rio, adora os deuses planetários e dorme.
então, sonha um coração pulsante. depois de quatorze noites, já havia artéria pulmonar. em menos de um ano, chegou ao esqueleto e às pálpebras.
noite após noite, sonhava a sua criação: um homem adormecido. criatura pronta, não falava, nem andava. o mago, esgotado, numa certa noite quase destruiu sua obra. diz o texto, num parêntesis, que teria sido melhor destruí-lo...

pede ajuda ao deus, nas ruínas onde se encontra. o nome desse deus era "fogo". este deus o ajuda e pede que a figura criada seja enviada a outra região. 
"no sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou".

o mago aceitou a ideia. gastou dois anos ainda para terminar a obra por completo. o homem que sonhava chama sua obra de "filho". nesse tempo, preparou-o com tarefas que envolviam esforço físico. passado tempo, era hora de fazê-lo nascer. em carne e osso, então, é enviado a outo templo. o homem tem  cuidado de apagar a memória dos tempos de aprendiz desse filho. só seu criador e o deus fogo sabem que o sonhado desperto é um fantasma, não é real.

tempos se passam e dois homens daquela aldeia revelam a ele, mago, que há uma pessoa que pode atravessar o fogo sem sofrer queimaduras. o homem sabe, portanto, que se trata de seu filho.
temendo que este filho descobrisse que ele seria um simulacro, o homem temeu pela decepção de que sofreria...  temeu, então, pelo futuro do filho.
suas preocupações tiveram final brusco. um incêndio -- como ocorrido tempos atrás -- toma as ruínas novamente. pensou em refuguiar-se nas águas, mas acreditou que poderia ser a hora de morrer, após anos e anos vividos. entrega-se às chamas. contudo, as labaredas não o consomem. ele era também um simulacro, um fantasma. ele era a projeção de um outro homem. 


. . . . . . . . . . .  .   .   .   .   .   .   .    .

conto - - narrativa com um conflito; uma célula dramática

conflito (clímax) - - a descoberta, pelo mago, de que ele era um simulacro

foco - - terceira pessoa

a epígrafe do texto é de charles dodge: "and if he left off dreaming about you..."
 [ "alice através do espelho" -- lewis carroll, pseudônimo de dodge ]

teóricos da literatura afirmam que este estilo de borges seria o "realismo mágico". ou "realismo fantástico", o que, por si só, demanda tremendo paradoxo. não gosto dessa nomenclatura. prefiro surrealismo mesmo. fantasia. mas vão dizer que eu não estudei tanto como os demais teóricos, então, fica assim: borges é realismo mágico (seguem meus risos de boca fechada).
simulacro, fantasia, força dos mitos, nada novo, como se vê. mas a ficção de borges aguça nossa curiosidade por olhar através do espelho.

debates possíveis 

- - mitologia: para que servem as religiões? 
- - ser sonhador é ser utópico? 
- - o que é realidade?
- -  quem sou eu? sou a projeção de outros em mim, desde a infância?
- - gênesis bíblico e frankenstein se unem ao debate
- - alice no país das maravilhas, obviamente, entra na história


2 comentários:

  1. Estou lendo o livro Ficções. Livro extremamente complexo.

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  2. Pois é, Rodrigo! Mas é obra prima, a meu ver. Tentei fazer uma sinopse... veja se ajudei! Obrigado por ter vindo!

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